VIRTUDES – PRUDÊNCIA SEGUNDO BALTASAR GRACIÁN (Primeira parte)

 

Prudência segundo Baltazar Gracián (parte 1) - Unknown Artist
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           Baltasar Gracián escreveu o livro “A arte da prudência” em 1647 e agora disponível em uma edição moderna da Editora Sextante.

           O livro “A arte da prudência” foi escrito com o intuito de oferecer aos homens do seu tempo um guia para ajudá-los a se desemaranhar nos labirintos das intrigas, das dúvidas e das maledicências cotidianas.

           Na edição da Sextante foram reunidos cento e cinquenta aforismos selecionados entre os trezentos originais. Cada um deles traz um conselho aplicável a situações concretas e ensinamentos essenciais para a vida pessoal e profissional. 

           A seguir podem ser consultados alguns desses aforismos sobre os quais faço comentários no áudio disponível em meu site. Portanto leia e ouça os comentários

 

EVITAR AS VITÓRIAS SOBRE O CHEFE

 

           Toda derrota é odiosa e, se é sobre o chefe, ou é tola ou é fatal. A superioridade sempre foi odiada, mais ainda pelos superiores. O sábio deve ocultar as vantagens mais comuns, assim como se disfarça a beleza com o desalinho. É possível encontrar quem aceite ser superado em sucesso e em caráter, mas ninguém quer ceder em inteligência, muito menos um superior. É este o maior dos atributos e por isso qualquer crime contra ele será de lesa-majestade. Quem é poderoso quer sê-lo no mais importante. Os chefes gostam de ser ajudados, mas não superados. Ao aconselhá-los, é melhor que o aviso pareça uma lembrança de algo esquecido, em vez de ser luz do que não se alcançou. Os astros, com acerto, nos ensinam essa sutileza, pois ainda que sendo filhos brilhantes nunca competem com o brilho do Sol.

 

AGIR COM INTENÇÃO. COM PRIMEIRA E SEGUNDA INTENÇÕES

 

           A vida humana é uma luta contra a malícia do próprio homem: a sagacidade luta com estratagemas de má intenção. Nunca faz o que indica: despista, insinua-se com destreza e dissimulação e atua de maneira inesperada, sempre atenta para confundir. Mostra uma intenção para tranquilizar e muda imediatamente de posição, vencendo pela surpresa. Mas a inteligência perspicaz se previne com a observação cuidadosa, se protege com cautela, entende sempre o contrário do que quer que se entenda e descobre instantaneamente qualquer jogo duplo. Deixa passar toda primeira intenção e fica à espera da segunda, e ainda da terceira. Quando a artimanha é descoberta, a simulação aumenta mais ainda e tenta enganar com a própria verdade. Muda de jogo para mudar a armadilha e transforma a verdade sincera em erro, baseando sua astúcia na inocência. Mas a advertência decifra a real intenção e descobre as trevas revesti das de luz.

 

NÃO COMEÇAR COM MUITA EXPECTATIVA

 

           É comum ver que tudo aquilo que recebe muitos elogios antes de acontecer não alcançará depois o sucesso esperado. O real nunca pode alcançar o imaginado, porque imaginar a perfeição é fácil, mas atingi-Ia é muito difícil. O casamento da imaginação com o desejo sempre concebe as coisas muito melhores do que elas são. A excelência - por maior que seja - não é suficiente para satisfazer ideia inicial. Por isso, ao criar uma expectativa exorbitante, causasse mais decepção que admiração. A esperança é uma grande falsificadora da verdade. A sensatez deve refreá-la, procurando que o gozo do real supere o desejo do imaginário. Os inícios honrados servem para despertar a curiosidade e não para comprometer a tentativa final. O resultado é melhor quando a realidade supera o que se pensou. Esta regra não vale para coisas ruins. Quando se exagera um mal e a realidade desmente a imaginação, o que a princípio parecia muito ruim chega a ser tolerável.

 

A ARTE DA SORTE

 

           A boa sorte tem suas regras. Nem tudo é acaso para o sábio; o esforço pode ajudar a sorte. Alguns se contentam em colocar-se com toda a confiança às portas da sorte e esperar que ela faça algo. Outros, com mais tino, entram por essas portas e fazem uso de uma, razoável audácia que, junto com sua virtude e coragem, pode atingir a boa sorte e obter seus benefícios. Não há, porém, outro caminho a não ser o da virtude e da prudência, porque não há boa ou má sorte, mas apenas prudência ou imprudência.

 

CONHECER OS FELIZARDOS PARA ACOLHÊ-LOS, E OS AZARADOS PARA EVITÁ- LOS

 

           A má sorte é, com frequência, culpa da estupidez, e não há nada mais contagioso que a infelicidade. Nunca se deve abrir a porta para o menor mal que seja, pois sempre virão atrás, às escondidas, muitos outros e maiores. O segredo no jogo é saber descartar: é mais importante a menor carta que se tem na mão que a maior que já passou. Na dúvida, o melhor é aproximar-se dos sábios e prudentes, pois cedo ou tarde encontrarão a boa sorte.

 

SABER SE RETIRAR QUANDO SE ESTÁ GANHANDO

 

           É o que fazem os jogadores profissionais. É tão importante uma retirada brilhante quanto um ataque esforçado. É preciso pôr a salvo as conquistas, principalmente se forem expressivas. Um sucesso continuado é sempre suspeito; é mais seguro que a boa sorte se alterne. Quanto maior a sorte, maior o risco de um deslize acabar com tudo. Às vezes, a brevidade do prazer é recompensada com a intensidade. A sorte se cansa quando tem de levar alguém nas costas por muito tempo.

 

NUNCA EXAGERAR

 

           É importante não falar com superlativos para não faltar com a verdade e ferir a própria sensatez. Os exageros indicam escassez de conhecimento e gosto. O elogio desperta a curiosidade e excita o -desejo. Depois, se o valor não corresponde ao preço, como acontece com frequência, a expectativa se volta contra o elogiado e o que elogiou. Por isso o sábio vai devagar e prefere pecar por pouco do que por muito. O excelente é raro: é necessário moderar a admiração. Exagerar é uma forma de mentir. Pode arruinar a reputação de bom gosto e, o que é mais grave, a de sabedoria.