VALORES PARA A CONVIVÊNCIA – AMIZADE

AMIZADE - Unknown Artist
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A AMIZADE FRUTO DA MATURIDADE

 

A amizade é um dos valores que se desenvolvem paralelamente à evolução da pessoa. Há que se começar desde pequenos, mesmo sabendo que as crianças mais novinhas experimentam só os primeiros esboços de amizade, que ganham consistência à medida que crescem.

O desinteresse, a generosidade, a confiança mútua, a durabilidade... são características da verdadeira amizade, e não são compatíveis com o egocentrismo e a instabilidade, próprios e necessários à infância e à adolescência.

Além disso, a amizade é uma forma de amor, e, como tal, está sempre em constante evolução. Trata-se de um processo que começa, avança e não chega nunca à perfeição, ainda que busquemos alcançá-la. Não se trata tanto de "ser" amigo, mas de "fazer-se" amigo, no sentido de ir sendo, cada vez mais, amigo.

Finalmente, como qualquer forma de amor, ela pode desaparecer, apesar de, por sua natureza, tender a ser duradoura. Ela se extingue se os amigos tomam atitudes contrárias às qualidades próprias da amizade, como descreveremos adiante.

 

RELATIVIZANDO E VALORIZANDO AS AMIZADES INFANTÍS

 

Não nos deve surpreender a variabilidade das amizades infantis, uma vez que estas:

• Nascem de circunstâncias totalmente casuais: pertencem ao mesmo grupo, sentam na mesma sala de aula, cruzam-se nos mesmos caminhos...

• Mudam segundo as variações dessas circunstâncias. Basta que não estejam na mesma mesa ou não se encontrem no parque para que deixem de ser amigos.

Se lembrarmos dos nomes dos amigos de nosso filho, veremos como mudam de um mês para o outro, e mais ainda de um ano para o outro. Por esse motivo devemos relativizar o conceito de amizade em relação às crianças pequenas.

Entretanto, temos de reconhecer que nesses vislumbres de amizade já existem algumas características que serão próprias da amizade madura. E, por isso, devemos valorizar esses esforços imaturos que são a base da aprendizagem deste valor.

 

A amizade é fruto da maturidade; na infância ela só se inicia

 

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA AMIZADE

 

 

QUERER O BEM E A FELlCIDADE  DO AMIGO

A amizade é uma forma de amor e, por isso, implica o desejo de que a pessoa amada esteja bem e seja feliz. A amizade não pode prejudicar.

 

DESINTERESSE

A amizade que quer aproveitar-se do amigo se converte em comércio. O egoísmo estraga a amizade e qualquer outra forma de amor.

 

RECIPROCI DADE

A amizade é um sentimento mútuo; existem amores anônimos, mas não existem  amizades anônimas.

 

ESPECIFICIDADE

Os amigos são concretos; sabemos quem são, uma vez que a amizade não é uma relação difusa e indefinida e que não podemos ser amigos de todo mundo.

 

IGUALDADE

A amizade não aceita diferenças que criem uma relação de dependência, de submissão,  de superioridade ou de inferioridade, de hierarquia. Respeitar as características de cada um é elemento essencial da amizade. 

 

DESEJO DE ESTAR JUNTOS

Os amigos desejam a assiduidade da convivência, da conversa frequente para comunicar sentimentos, ideias, vivências, projetos... A ausência debilita a amizade.

 

CONFIANÇA MÚTUA

A relação de amizade baseia-se na confiança total, na sinceridade, na discrição e na transparência. É preciso haver segurança absoluta de um e de outro.

 

LIBERDADE

A amizade é fruto da liberdade e deve suscitar maior liberdade ainda. Os amigos não se impõem, encontram-se por casualidade e são fruto de uma eleição pessoal e livre.

 

CONTO

OS MÚSICOS DE BREMEN (Irmãos Grimm)

 

Um lavrador tinha um asno muito trabalhador, que durante anos havia levado, sem se queixar, uma montanha de sacos de farinha ao moinho. Chegou o dia em que as patas não aguentaram mais e o lombo deu um basta. Então o dono pensou em matá-lo. O asno percebeu e fugiu para a cidade de Bremen, pensando que ali poderia trabalhar como músico.

No caminho encontrou um cachorro perdigueiro que, deitado no chão, arfava de cansaço.

- Parece muito cansado, meu amigo – disse o asno.

- Ai de mim! Porque sou velho e não sirvo para caçar, meu amo queria me matar. Por sorte consegui escapar! Mas, o que farei agora?

-Já sei! - disse o asno. - Vem comigo até Bremen para ver se lá encontramos trabalho de músicos. Eu tocarei os timbales e você, a guitarra.

O cachorro se animou e seguiram juntos pelo caminho. Não tinham caminhado muito quando encontraram um pobre gato faminto.

- O que aconteceu, Bigode? - perguntou o asno.

- Estou velho, e prefiro ficar na beira do fogão a perseguir ratos. Minha dona queria me afogar. Eu consegui fugir, mas aonde irei agora?

- Venha conosco. Você é músico e garanto que lhe quererão na banda de Bremen.

O gato gostou da ideia e se uniu aos outros dois. Um pouco mais tarde, os três fugitivos chegaram a uma granja. Empoleirado sobre o portão, um galo cacarejava.

- O que aconteceu, galo?

- Amanhã é domingo, a dona tem convidados, e disse à cozinheira que me leve à panela. Esta noite vão querer cortar o meu pescoço.

- Olhe aqui, Crista Vermelha, será melhor que venha conosco. Vamos a Bremen, e com sua boa voz e nossa banda ficaremos ricos.

- Me parece uma ótima ideia - disse o galo.

E os quatro foram para Bremen! Mas não chegaram naquele mesmo dia; anoiteceu e eles resolveram dormir no bosque. O asno e o cachorro se encostaram embaixo de uma árvore muito alta, o gato subiu nos galhos, e o galo empoleirou-se na copa. Antes de dormir, ele viu ao longe uma pequena luz. Chamou os companheiros.

- Eh! Deve haver uma casa aqui perto.

- O melhor que podemos fazer - disse o asno - é ir lá para ver.

Eles se dirigiram para a luz que brilhava, mas, quando chegaram, viram que era um esconderijo de ladrões. O asno, que era o mais alto, aproximou-se da janela para dar uma olhada.

- O que você está vendo? - perguntou o galo.

- Vejo uma mesa com muita comida e um bando de ladrões que estão se banqueteando.

- Caramba! Que fome! - disse o galo.

E os quatro animais começaram a pensar na melhor maneira de afugentar os ladrões. Até que encontraram a solução: o asno pôs as patas no parapeito da janela, o cachorro subiu nas suas costas, o gato subiu em cima do cachorro, e o galo voou sobre a cabeça do gato. Então se puseram a gritar todos de uma vez: o asno zurrava, o cachorro latia, o gato miava, e o galo cantava. E, na mesma hora, entraram pela janela da sala e causaram um enorme estrago.

De um salto, os ladrões, aterrorizados, se levantaram e saíram correndo para o bosque, pensando tratar-se de um fantasma. Os quatro amigos sentaram-se à mesa e comeram até cansar. Quando terminaram, apagaram a luz e cada um procurou o seu lugar. O asno deitou-se sobre o estrume, o cachorro, atrás da porta, o gato, sobre o fogão a lenha, e o galo, em cima de uma viga.

À meia-noite, o chefe dos ladrões, vendo que a casa estava toda escura e em paz, pensou que os ladrões haviam exagerado e mandou um do bando para ver o que tinha acontecido. O enviado entrou na cozinha para acender o lampião e, pensando que os olhos brilhantes do gato eram brasas, aproximou um fósforo. O felino, que não estava para brincadeiras, arranhou o seu rosto. Assustado, ele voltou para a porta, o cachorro levantou-se e cravou-lhe os dentes na perna. Ao sair, topou com o asno, que lhe deu dois coices, enquanto o galo, de cima da viga, não parava de gritar "quiquiriqui". O ladrão, desconcertado, correu para o bosque e avisou ao chefe:

- Na casa tem uma bruxa que arranha, um homenzarrão que me enfiou uma navalha na perna, um monstro negro que me deu uns golpes, e um juiz que grita: "Quem está gritando aqui?" .

Ao ouvir isto, os ladrões, aterrorizados, nunca mais voltaram à casa, e os músicos de Bremen gostaram tanto do lugar que ficaram por ali. E quem não acreditar que vá até lá para ver.

 

OS PAIS, AMIGOS DOS FILHOS?

 

Se observarmos as características da relação entre pais e filhos, veremos que é impossível que haja uma amizade no sentido pleno da palavra entre tais pessoas. A relação paterno-filial, nas duas direções, reveste-se de uma modalidade de amor diferente da amizade. A dependência dos filhos, a diferença de idade e de experiências, a ausência de liberdade de escolha, e a hierarquização da sociedade familiar originam outros vínculos.

Podemos supor que, se os filhos são maiores, independentes e economicamente autônomos, exista a possibilidade de que esta relação possa converter-se em algo muito próximo da amizade.

Entretanto, enquanto os filhos vivem na casa dos pais, os pais devem exercer precisamente o papel de pais, missão bastante comprometida e de enorme responsabilidade.

A melhor maneira de educá-los na amizade será fazer com que vejam as relações que temos com nossos amigos; este será o melhor método educativo para este valor.

 

A amizade não se encontra, não se procura

 

FRASES. CÉLEBRE

 

- É amigo aquele que é como outro eu. (Cícero, filósofo romano).

- O amigo é a metade de minha alma. (Horácio, poeta latino).

- Um bom amigo é um tesouro. (Quintiliano, retórica romano).

- Rei que não tem amigo é um mendigo. (Provérbio medieval)

- A pior solidão é ver-se sem uma amizade sincera. (Francis Bacon, filósofo inglês).

- A única forma para ter um amigo é ser um amigo. (Ralph Waldo Emerson, filósofo norte-americano).

- O falso amigo é como a sombra, que nos segue enquanto dura o sol. (Cada Dossi, escritor italiano).

 

ATIVIDADES

 

PRIMEIRAS PISTAS DE AMIZADE

 

“É interessante refletir ocasionalmente sobre fatos ocorridos em casa, na escola”. que contenham algumas características (positivas ou negativas) da amizade.

Uma frase muito simples serve para ressaltar que tal ou qual característica (às vezes um pequeno detalhe) é sinal da verdadeira amizade.

 

POSSÍVEIS FRASES

 

• Você é muito amiga de Susana porque sempre as vejo juntas,

• Nota-se que é amiga do Sérgio porque sempre lhe conta suas coisas,

• Se dois amigos brigam muito, deixarão de ser amigos.

• Estes dois não devem ser muito amigos porque, quando podem se ajudar, não o fazem.

 

TESTEMUNHOS DE AMIZADE

 

Para aprofundar a atividade anterior, pode-se pedir às crianças que reflitam sobre o sentido de amizade e que comparem com o que entediam por ela quando eram menores.

Finalmente, pode-se partir do conto "Os músicos de 8remen" para entabular uma conversa frutífera sobre o tema e ensinar-lhes que a vida é um caminho no qual vamos encontrando amigos, como aconteceu com os quatro animais da história.

 

SUGESTÕES

 

• São amigos os animais do conto ou simples companheiros de viagem? Por quê?

• Que vantagens isso traz?

• Como respeitam as características de cada um?

• O que aconteceria se cada um tivesse encontrado com os ladrões sem a companhia dos outros animais? Continuando, podemos generalizar as conclusões extraídas:

• Qual é a diferença entre um amigo e um companheiro?

• O que pode pôr em perigo uma amizade?

 

POR QUE VOCÊ É MEU AMIGO?

 

Esta atividade consiste em dialogar com nossos filhos sobre o porquê de suas amizades e das nossas. Ou seja, expressar em voz alta as razões pelas quais consideramos uma pessoa nossa amiga.

Nossos filhos devem descrever aquelas características dos seus amigos que fazem com que eles gostem de sua companhia e queiram seguir alimentando essa amizade. Deve ser um diálogo muito informal.

 

EXEMPLOS

 

• Em que temas coincidem nossos gostos?

• Em que assuntos é mais fácil chegar a um acordo?

• De que qualidade você mais gosta?

• No que gostaria que ele mudasse?

• Como se complementam nossas qualidades?

 

Os amigos nem nos precedem nem nos seguem; vão ao nosso lado

 

A INTELIGÊNCIA DE TER AMIGOS

 

A finalidade desta atividade é valorizar a capacidade de ter amigos como uma estupenda manifestação de inteligência.

Vamos fazendo uma lista das distintas formas de inteligência e de outras qualidades de companheiros de nossos filhos, inclusive dos membros da família.

Devemos procurar que também pensem naqueles que têm facilidade para fazer amigos e formar grupos de amizade ao seu redor.

Do mesmo modo, é preciso fazer-lhes perceber que, na vida, a capacidade de ter amigos é uma forma de inteligência tanto ou mais importante que outras manifestações popularmente mais valorizadas como inteligência.