A COMUNICAÇÃO QUE NOS AFASTA DA VIDA E DAS PESSOAS

A comunicação que nos afasta da vida e das pessoas - Unknown Artist
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Estudo do livro de Marshall B. Rosenberg

 

              Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, como critério com que julgardes, sereis julgados. MATEUS 7, 1

 

              Algumas formas específicas de linguagem e comunicação contribuem para nosso comportamento violento em relação aos outros e a nós mesmos. Para designar essas formas de comunicação, podemos usar a expressão "comunicação alienante da vida".

 

JULGAMENTOS MORALIZADORES

 

              Um tipo de comunicação alienante da vida é o uso de julgamentos moralizadores que subentendem uma natureza errada ou maligna nas pessoas que não agem em consonância com nossos valores. Tais julgamentos aparecem em frases como:

              "O teu problema é ser egoísta demais",

              "Ela é preguiçosa",

              "Eles são preconceituosos".

              Culpa, insulto, depreciação, rotulação, crítica, comparação e diagnósticos são todos formas de julgamento.

              A comunicação alienante da vida nos prende num mundo de ideias sobre o certo e o errado - um mundo de julgamentos, uma linguagem rica em palavras que classificam e dicotomizam as pessoas e seus atos. Quando empregamos essa linguagem, julgamos os outros e seu comportamento enquanto nos preocupamos com o que é bom, mau, normal, anormal, responsável, irresponsável, inteligente, ignorante etc.

              Quando usamos tal linguagem, pensamos e nos comunicamos em termos do que há de errado com os outros para se comportarem desta ou daquela maneira - ou, ocasionalmente, o que há de errado com nós mesmos para não compreendermos ou reagirmos do modo que gostaríamos. Nossa atenção se concentra em classificar, analisar e determinar níveis de erro, em vez de fazê-lo no que nós e os outros necessitamos e não estamos obtendo. Assim, se minha mulher deseja mais afeto do que estou lhe dando, ela é "carente e dependente". Mas, se quero mais atenção do que me dá, então ela é "indiferente e insensível". Se meu colega atenta mais aos pormenores do que eu, ele é "cricri e compulsivo". Por outro lado, se sou eu quem presta mais atenção aos detalhes, ele é "lambão e desorganizado".

              Todas essas análises de outros seres humanos são expressões trágicas de nossos próprios valores e necessidades. São trágicas porque, quando expressamos nossos valores e necessidades de tal forma, reforçamos a postura defensiva e a resistência a eles nas próprias pessoas cujos comportamentos nos interessam. Ou, se essas pessoas concordam em agir de acordo com nossos valores porque aceitam nossa análise de que estão erradas, é provável que o façam por medo, culpa ou vergonha.

              Todos pagamos caro quando as pessoas reagem a nossos valores e necessidades não pelo desejo de se entregar de coração, mas por medo, culpa ou vergonha. Cedo ou tarde, sofreremos as consequências da diminuição da boa vontade daqueles que se submetem a nossos valores pela coerção que vem de fora ou de dentro. Eles também pagam um preço emocional, pois provavelmente sentirão ressentimento e menos autoestima quando reagirem a nós por medo, culpa ou vergonha. Além disso, toda vez que os outros nos associam a qualquer desses sentimentos, reduzimos a probabilidade de que no futuro venham a reagir compassivamente a nossas necessidades e valores.

              A relação entre linguagem e violência é tema das pesquisas de O. J. Harvey, professor de psicologia na Universidade do Colorado. Ele tomou amostras aleatórias de obras literárias de países mundo afora e tabulou a frequência das palavras que classificam e julgam as pessoas. Seu estudo constata elevada correlação entre o uso frequente dessas palavras e a incidência de violência.

               Não surpreende saber que existe consideravelmente menos violência em culturas nas quais as pessoas pensam em termos das necessidades humanas do que em outras nas quais as pessoas se rotulam de "boas" ou "más" e acreditam que as "más" merecem ser punidas. Em 75% dos programas', exibidos nos horários em que existe maior probabilidade de as crianças americanas estarem assistindo à TV, o herói ou mata pessoas, ou as espanca. Tal violência costuma constituir o "clímax" do espetáculo. Os telespectadores (a quem se ensinou que os maus merecem castigo) sentem prazer em ver essa violência.

 

FAZENDO COMPARAÇÕES

 

              Outra forma de julgamento é o uso de comparações. No livro How to make yourselj miserable [Como enlouquecer você mesmo: o poder do pensamento negativo], Dan Greenberg demonstra por meio do humor o poder insidioso que o pensamento comparativo pode exercer sobre nós. Ele sugere que, se os leitores tiverem um desejo sincero de tornar suas vidas infelizes, devem aprender a se comparar a outras pessoas. Para aqueles que não estão familiarizados com essa prática, Greenberg fornece alguns exercícios. O primeiro mostra as figuras de corpo inteiro de um homem e uma mulher que encarnam o presente ideal de beleza física expresso pela mídia. Os leitores são instruídos a tomar suas próprias medidas corporais, compará-las às indicadas nas figuras daqueles dois espécimes atraentes e ficar matutando sobre as diferenças.

              O exercício cumpre o que promete: quando fazemos essas comparações, começamos a nos sentir infelizes. No momento em que já estamos tão deprimidos quanto julgamos possível, nós viramos a página e descobrimos que o primeiro exercício tinha sido só aquecimento. Já que a beleza física é relativamente superficial, Greenberg nos oferece agora a oportunidade de nos compararmos aos outros em algo que importa para valer: as realizações pessoais. Ele escolhe ao acaso alguns indivíduos com quem possamos nos comparar. O primeiro nome que ele diz ter achado é o de Wolfgang Amadeus Mozart. Greenberg enumera os idiomas que Mozart falava e as obras importantes que compôs quando ainda era adolescente. O exercício nos instrui então a nos lembrar de nossas respectivas realizações na atual fase de nossa vida, compará-las com o que Mozart já havia conseguido aos 12 anos e refletir longamente sobre as diferenças.

              Por meio daquele exercício, até os leitores que nunca conseguem sair da infelicidade autoimposta são capazes de ver quanto esse tipo de pensamento bloqueia a compaixão, tanto por si próprios quanto pelos outros.

 

NEGAÇÃO DE RESPONSABILIDADE

 

              Outro tipo de comunicação alienante da vida é a negação de responsabilidade. A comunicação alienante da vida turva nossa consciência de que cada um de nós é responsável por seus próprios pensamentos, sentimentos e atos. O uso corriqueiro da expressão "ter de" (como em: "Há algumas coisas que você tem de fazer, quer queira, quer não") ilustra de que modo a responsabilidade pessoal por nossos atos fica obscurecida nesse tipo de linguagem. A expressão "fazer alguém sentir-se" (como em: "Você me faz sentir culpado") é outro exemplo da maneira pela qual a linguagem facilita a negação da responsabilidade pessoal por nossos sentimentos e pensamentos.

              Por exemplo, se lhe perguntassem por que alguém tomara certa atitude, a resposta poderia ser: "Tive de fazer isso". Se lhe perguntassem por que "teve de fazer", a resposta seria: "Ordens superiores", "A política institucional era essa", "Era o que mandava a lei".

              Negamos responsabilidade por nossos atos quando os atribuímos a:

              • forças vagas e impessoais ("Limpei meu quarto porque tive de fazê-lo");

              • nossa condição, diagnóstico, histórico pessoal ou psicológico ("Bebo porque sou alcoólatra");

              • ações dos outros ("Bati no meu filho porque ele correu para a rua");

              • ordens de autoridades ("Menti para o cliente porque o chefe me mandou fazer isso");

              • pressão do grupo ("Comecei a fumar porque todos os meus amigos fumavam");

              • políticas, regras e regulamentos institucionais ("Tenho de suspender você por conta dessa infração; é a política

                da escola");

              • papéis determinados pelo sexo, idade e posição social ("Detesto ir trabalhar, mas vou porque sou pai de família");

              • impulsos incontroláveis ("Fui tomado por um desejo de comer aquele doce").

              Certa vez, segundo relata Marshall, durante uma discussão entre pais e professores sobre os perigos de uma linguagem que implicasse ausência de escolha, uma mulher objetou, irada:

              “Mas existem algumas coisas que você tem de fazer, gostando ou não”!

              Quando pedi que desse um exemplo de algo que "tinha de fazer", ela respondeu:

              "É fácil! Quando eu sair daqui esta noite, tenho de ir para casa e cozinhar. Eu detesto cozinhar! Detesto do fundo da alma, mas venho fazendo isso todos os dias há vinte anos, até quando estava muito doente, porque é uma das coisas que a gente simplesmente precisa fazer".

              Eu lhe disse que estava consternado em ouvir que ela passara tanto tempo de sua vida fazendo algo que detestava só porque se achava compelida a fazê-la, e que eu esperava que ela pudesse encontrar possibilidades melhores aprendendo a linguagem da CNV.

              Tenho o prazer de informar que ela aprendeu rápido. No final do seminário, foi para casa e anunciou à família que não queria mais cozinhar.

              A oportunidade de recebermos algum retorno de seus familiares ocorreu três semanas depois, quando os dois filhos chegaram para participar de um seminário. Eu estava curioso para saber como tinham reagido à declaração da mãe. O filho mais velho suspirou - "Marshall, eu simplesmente pensei: 'Graças a Deus!" Vendo minha expressão intrigada, ele explicou: "Pensei comigo mesmo: 'Talvez ela finalmente pare de reclamar durante as refeições!”.

 

              Em outra ocasião, quando     Marshall prestava consultaria a uma secretaria municipal de ensino, uma professora observou:

              "Detesto dar nota. Acho que elas não ajudam e ainda criam muita ansiedade nos alunos. Mas tenho de dar, é a política da secretaria".

              Marshall sugeriu que a professora substituísse a frase:

               "Tenho de dar nota porque é a política da secretaria" por esta: "Eu opto por dar nota porque desejo...”.

               Ela respondeu sem hesitação:

              "Eu opto por dar nota porque desejo manter o emprego". Apressou-se a acrescentar: "Mas não gosto de dizer dessa maneira. Faz que eu me sinta tão responsável pelo que faço...”.

              Marshall respondeu:

              "É exatamente por isso que quero que você diga dessa maneira".

 

 

OUTRAS FORMAS DE COMUNICAÇÃO ALIENANTE DA VIDA

 

              Comunicar nossos desejos como exigências é outra forma de linguagem que bloqueia a compaixão. Uma exigência ameaça os ouvintes explícita ou implicitamente com culpa ou punição se eles não a atenderem. É uma forma de comunicação comum em nossa cultura, especialmente entre aqueles que detêm posições de autoridade.

Marshall relata sua experiência com seus filhos:

              Meus filhos me deram algumas lições valiosas sobre exigências. De alguma forma, meti em minha cabeça que, como pai, era meu papel fazer exigências. Contudo aprendi que, mesmo que eu fizesse todas as exigências do mundo, isso não os levaria a fazer coisa alguma. É uma lição de humildade no exercício do poder, para aqueles entre nós que acreditam que, por sermos pais, professores ou administradores, é nossa tarefa mudar as outras pessoas e fazê-las se comportar. Pois ali estavam aqueles jovens me mostrando que eu não conseguiria obrigá-los a nada. No máximo poderia, por meio da punição, fazê-los desejar ter feito o que eu queria. E eles acabaram me ensinando que, sempre que eu fosse tolo o bastante para fazer isso, teriam meios para me fazer desejar não tê-los punido!

 

              A comunicação alienante da vida também se associa ao conceito de que certos atos merecem recompensa e outras punições. Tal forma de pensar se expressa pelo verbo "merecer", como em "João merece ser punido pelo que fez". Ela presume "maldade" da parte das pessoas que se comportam de determinadas maneiras e demanda alguma punição para fazê-las se arrependerem e se emendarem. É do interesse de todos que as pessoas mudem não para evitarem punições, mas por perceberem que a mudança as beneficiará.

              A maioria de nós cresceu usando uma linguagem que, em vez de nos encorajar a perceber o que estamos sentindo e do que precisamos, nos estimula a rotular, comparar, exigir e proferir julgamentos. Acredito que a comunicação alienante da vida se baseia em concepções sobre a natureza humana que exerceram influência durante vários séculos. Tais visões dão ênfase a nossa maldade e nossa deficiência inatas, bem como a necessidade de educar para controlar nossa natureza inerentemente indesejável. É comum que esse tipo de educação nos faça questionar se há algo errado com os sentimentos e as necessidades que possamos estar vivenciando. Aprendemos desde cedo a isolar o que se passa dentro de nós.

              A comunicação alienante da vida tanto se origina de sociedades baseadas na hierarquia ou dominação quanto sustenta essas sociedades. Onde quer que uma grande população se encontre controlada por um número pequeno de indivíduos para o benefício desses últimos, é do interesse dos reis, czares, nobres etc. que as massas sejam educadas de forma tal que a mentalidade delas se torne semelhante à de escravos. A linguagem do "errado", o "deveria" e o "tenho de", é perfeitamente adequada a esse propósito: quanto mais as pessoas forem instruídas a pensar em termos de julgamentos moralizadores que implicam que algo é errado ou mau, mais elas serão treinadas a consultar instâncias exteriores - as autoridades - para saber a definição do que constitui o certo, o errado, o bom e o mau. Quando estamos em contato com nossos sentimentos e necessidades, nós, humanos, deixamos de ser bons escravos e lacaios.

 

RESUMO

              É de nossa natureza gostar de dar e receber com compaixão. Entretanto, aprendemos muitas formas de "comunicação alienante da vida" que nos levam a falar e a nos comportar de maneira que ferem aos outros e a nós mesmos. Uma forma de comunicação alienante da vida é o uso de julgamentos moralizadores que implicam que aqueles que não agem em consonância com nossos valores estão errados ou são maus. Outra forma desse tipo de comunicação é fazer comparações, que são capazes de bloquear a compaixão tanto pelos outros quanto por nós mesmos. A comunicação alienante da vida também prejudica nossa compreensão de que cada um de nós é responsável por seus próprios pensamentos, sentimentos e atos. Comunicar nossos desejos na forma de exigências é ainda outra característica·da linguagem que bloqueia a compaixão.