IDENTIFICANDO E EXPRESSANDO SENTIMENTOS

Identificando e expressando sentimentos - Unknown Artist
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Estudo do livro de Marshall B. Rosenberg

 

ESCUTANDO SENTIMENTOS

Trechos do Livro “Escutando Sentimentos” do Espírito Ermance Dufaux pela psicografia de Wanderley S. de Oliveira

 

“Inteligência – o instrumento evolutivo para as conquistas de fora.

Senntimento – conquista evolutiva para aquisições íntimas”.

 

              “Escutar os sentimentos não significa adotá-los prontamente, mas aceitá-los em nossa intimidade e criar uma relação amigável com todos eles”. Aceitá-los sem reprimir ou se envergonhar. Essa atitude é o primeiro passo para um diálogo educativo com nosso mundo íntimo. Somente assim teremos uma conexão com nossa real identidade psicológica, possibilitando a rica aventura do autodescobrimento no rumo da singularidade – a identidade cósmica do Espírito.”

              “Escutar os sentimentos é cuidar de si, amar a si mesmo. É uma mudança de atitude consigo. O ato de existir ocorre no sentimento. Quem pensa corretamente sobrevive; quem sente nobremente existe. O pensamento é a janela para a realidade; o sentimento é o ponto de encontro com a Verdade. É pela nossa forma de sentir a vida que nos tornamos singulares, únicos e celebramos a individualidade. Quando entramos em sintonia com nossa exclusividade e manifestamos o que somos, a felicidade acontece em nossas vidas.”

              “O sentimento é a maior conquista evolutiva do Espírito. Aprendendo a escutá-lo, estaremos entendendo melhor a nossa alma. Não existe um só sentimento que não tenha importância no processo do crescimento pessoal. Quando digo a mim mesmo "não posso sentir isto", simplesmente estou desprezando a oportunidade de autoinvestigação, de saber qual é ou quais são as mensagens profundas da vida mental”.

              “As gerações nascidas na segunda metade do século XX atingem o alvorecer do século XXI com "feridas psicológicas" profundas resultantes de uma sociedade repressiva, cujas relações de amor, com raras e heroicas exceções, foram vividas de modo condicional através de exigências. Para ser amada, a criança teve que atender a estereótipos de conduta. Um amor compensatório. Um rigor que afasta o ser humano de sua individualidade soterrando sua vocação, seus instintos, suas habilidades e até mesmo imperfeições. O pior efeito dessa repressão social é a distância que se criou dos sentimentos”.

 

O ALTO CUSTO DOS SENTIMENTOS NÃO EXPRESSOS

 

              Nosso repertório de palavras para rotular os outros costuma ser maior do que o vocabulário para descrever claramente nossos estados emocionais.

              Marshall relata que passou 21 anos em escolas americanas e, durante todo esse tempo, não se lembra de ninguém ter perguntado como ele estava se sentindo. Os sentimentos simplesmente não eram considerados importantes. O que se valorizava era "a maneira certa de pensar" - tal como definida por aqueles que detinham posições de hierarquia e autoridade. Somos ensinados a estar "direcionados aos outros", em vez de em contato com nós mesmos. Aprendemos a ficar sempre imaginando: "O que será que os outros acham que é certo eu dizer e fazer?"

              Uma interação de Marshall com uma professora quando tinha uns nove anos demonstra como a alienação de nossos sentimentos pode começar. Uma vez, ele escondeu-se numa sala de aula porque alguns meninos estavam esperando do lado de fora para bater nele. Uma professora viu e pediu que saísse da escola. Quando explicou que estava com medo de sair, ela declarou: "Menino grande não pode ter medo".

              Alguns anos depois, isso foi reforçado quando Marshall começou a praticar esportes. Era típico dos treinadores valorizar atletas dispostos a "dar tudo de si" e continuar jogando, não importando a dor física que estivessem sentindo. Marshall Aprendeu a lição tão bem que, certa vez, jogou beisebol por um mês com o pulso quebrado.

 

              Num seminário de Comunicação Não Violenta, um universitário falou do colega de quarto que ligava o aparelho de som tão alto que ele não conseguia dormir. Marshall pediu que expressasse o que sentia quando isso acontecia, o estudante respondeu: "Sinto que não é certo tocar música tão alto à noite".

              Quando ele dizia a palavra sinto seguida de que, estava expressando uma opinião, mas não revelando seus sentimentos.

              Foi pedido que tentasse novamente expressar seus sentimentos, e ele respondeu: "Acho que, quando as pessoas fazem coisas como esta, é um distúrbio de personalidade". Aquilo ainda era uma opinião, e não um sentimento. Ele fez uma pausa pensativa e então anunciou com veemência: "Não tenho absolutamente nenhum sentimento a respeito disso!”.

Era óbvio que esse estudante tinha fortes sentimentos a respeito daquilo. Infelizmente, não sabia como tomar consciência de seus sentimentos, quanto mais como expressá-los. Essa dificuldade de identificar e expressar sentimentos é comum - e, segundo a experiência de Marshall, é especialmente comum entre advogados, engenheiros, policiais, executivos e militares de carreira, pessoas cujo código profissional as desencoraja a manifestar emoções.

              Para as famílias, o preço se torna alto quando os membros não são capazes de comunicar suas emoções. Reba McIntire, cantora de country e western, escreveu uma música depois da morte do pai e lhe deu o título: "The greatest man I never knew" ("O maior homem que nunca conheci"). Ao fazê-lo, ela sem dúvida estava expressando os sentimentos de muitas pessoas que nunca conseguem estabelecer a conexão emocional que gostariam de ter com os pais.

              São comuns afirmações como: "Não me interprete mal, sou casada com um homem maravilhoso, mas nunca sei o que ele está sentindo". Uma dessas mulheres insatisfeitas levou o marido a um seminário de Marshall, durante o qual ela lhe disse: "Sinto como se estivesse casada com uma parede". O marido então fez uma excelente imitação de parede: ficou sentado, calado e imóvel. Exasperada, ela se virou para Marshall e exclamou: "Veja! É isso que acontece o tempo todo. Ele fica sentado e não diz nada. É exatamente como se eu estivesse vivendo com uma parede".

              Marshall respondeu: "Está me parecendo que você está se sentindo solitária e querendo mais contato emocional com seu marido". Quando ela concordou, Marshall mostrou que era improvável que afirmações como "Sinto que estou vivendo com uma parede" despertassem a atenção do marido para seus sentimentos e desejos. Na verdade, era mais provável que fossem ouvidas como críticas do que como convite para se conectar com os sentimentos da esposa. Ademais, esse tipo de afirmação frequentemente leva a profecias que acabam por acarretar sua própria concretização.

 

Os benefícios de enriquecer o vocabulário de nossos sentimentos são evidentes não apenas em relacionamentos íntimos, mas também no mundo profissional.

 

              Em uma ocasião, Marshall estava trabalhando com os administradores de um hospital que andavam preocupados com uma iminente reunião com os médicos do estabelecimento. Queriam apoio para um projeto que os médicos recentemente haviam rejeitado por dezessete votos a um. Os administradores estavam ansiosos para saber como eles poderiam utilizar a CNV-Comunicação Não-Violenta ao falar com os médicos.

              Foi realizado um ensaio do encontro e, no papel de um administrador, Marshall começou dizendo: "Estou com medo de abordar esse assunto". Escolheu começar dessa maneira porque pode sentir quanto os administradores ficavam amedrontados ao se prepararem para confrontar outra vez os médicos. Um dos administradores me interrompeu para protestar: "Você não está sendo realista! Nunca poderíamos dizer aos médicos que estamos com medo".

              Perguntado por que parecia tão impossível reconhecer que estavam com medo, ele respondeu sem hesitação: "Se confessássemos que estamos com medo, eles nos fariam em pedacinhos!" A resposta não surpreendeu Marshall; já tinha ouvido muitas vezes as pessoas dizerem que não conseguem jamais se imaginar expressando seus sentimentos no local de trabalho.

              Entretanto, Marshall ficou satisfeito em saber que um dos administradores efetivamente decidiu arriscar expressar sua vulnerabilidade na temida reunião. Em vez da abordagem habitual, que consistia em parecer estritamente lógico, ele escolheu expressar seus sentimentos e os motivos pelo quais desejava que os médicos mudassem de posição. Percebeu como os médicos reagiram de forma diferente a ele. No final, ficou espantado e aliviado quando, em vez de ter sido "feito em pedacinhos" pelos médicos, estes reverteram sua posição e votaram por apoiar o projeto por dezessete votos contra um.               Aquela reviravolta dramática ajudou os administradores a perceberem e a apreciarem o impacto potencial de expressar a vulnerabilidade de cada um - até mesmo no local de trabalho.

 

              Consideremos agora um incidente pessoal que ensinou Marshall sobre os efeitos de esconder nossos sentimentos.

Ele dava um curso de CNV-Comunicação Não-Violenta para um grupo de estudantes de áreas urbanas decadentes. Quando entrou na sala no primeiro dia, os alunos, que estavam conversando animadamente uns com os outros, ficaram quietos. "Bom dia!", Marshall cumprimentou. Silêncio. Sentiu-se muito desconfortável, mas teve medo de expressar isso. Em vez disso, continuou com seu modo mais profissional. Disse: neste curso, estudaremos um processo de comunicação que, espero vocês achem útil no relacionamento em casa e com os amigos.

              Continuou a apresentar informações sobre a CNV-Comunicação Não-Violenta, mas ninguém parecia estar escutando. Uma moça, procurando na bolsa, achou uma lixa e começou a lixar vigorosamente as unhas. Os alunos próximos às janelas colaram seus rostos no vidro, como se estivessem fascinados pelo que acontecia na rua lá embaixo. Marshall começou

a sentir cada vez mais desconforto, mas continuou não dizendo nada. Finalmente, um aluno, que decerto tinha mais coragem do que Marshall estava demonstrando ter, disparou: "Você odeia estar com negros, não?" Marshall ficou atordoado, mas percebeu imediatamente como ele mesmo havia contribuído para essa percepção por parte do estudante, ao tentar esconder seu desconforto.

              Marshall disse; estou me sentindo nervoso, mas não porque vocês sejam negros, meus sentimentos têm a ver com não conhecer ninguém aqui e desejar ter sido aceito quando entrei nesta sala.

Essa expressão de vulnerabilidade teve um efeito acentuado nos alunos. Eles começaram a perguntar sobre Marshall, a contar coisas sobre eles mesmos e a expressar curiosidade sobre a CNV-Comunicação Não-Violenta.

 

SENTIMENTOS VERSUS NÃO-SENTIMENTOS

 

              Uma confusão comum gerada por nossa linguagem é o uso do verbo sentir sem realmente expressar nenhum sentimento. Por exemplo, na frase "Sinto que não consegui um acordo justo", a palavra sinto poderia ser mais precisamente substituída por penso, creio ou acho. Em geral, os sentimentos não estão sendo claramente expressos quando a palavra sentir é seguida de:

 

A. Termos como que, como, como se:

"Sinto que você deveria saber isso melhor do que ninguém".

"Sinto-me como um fracassado".

"Sinto como se estivesse vivendo com uma parede".

 

B. Vocábulo que seguido de pronomes como eu, ele, ela, eles, isso etc.:

"Sinto que eu tenho de estar constantemente disponível".

"Sinto que isso é inútil".

 

C. Vocábulo que seguido de nomes ou palavras que se referem a pessoas:

"Sinto que Lúcia tem sido bastante responsável".

"Sinto que meu chefe está me manipulando".

 

              Em contrapartida, não é necessário usarmos a palavra sentir quando estamos de fato expressando um sentimento: podemos dizer "Estou me sentindo irritado" ou, simplesmente, "Estou irritado".

              Na CNV-Comunicação Não-Violenta, distinguimos entre as palavras que expressam sentimentos verdadeiros e aquelas que descrevem o que pensamos que somos.

 

A. Uma descrição do que pensamos que somos:

"Sinto que sou mau violonista".

Nessa afirmação, estou avaliando minha habilidade como violonista, em vez de expressar claramente meus sentimentos.

 

B. Expressões de sentimentos verdadeiros:

"Estou me sentindo desapontado comigo mesmo como violonista".

"Sinto impaciência comigo mesmo como violonista".

"Sinto-me frustrado comigo mesmo como violonista".

 

              Portanto o sentimento real por trás de minha avaliação de mim mesmo como "mau" violonista pode ser de decepção, impaciência, frustração ou alguma outra emoção.

              Da mesma forma, é útil diferenciar palavras que descrevem o que pensamos que os outros estão fazendo à nossa volta de palavras que descrevem sentimentos reais. Eis alguns exemplos de afirmações que podem ser facilmente confundidas com expressões de sentimentos; na verdade, elas revelam mais sobre como achamos que os outros estão se comportando do que sobre o que realmente estamos sentindo:

 

A. "Sinto-me insignificante para as pessoas com quem trabalho".

A palavra insignificante descreve como acho que os outros estão me avaliando, e não um sentimento real, que, nessa situação, poderia ser "Sinto-me triste" ou "Sinto-me desestimulado".

 

B. "Sinto-me incompreendido."

Aqui, a palavra incompreendido indica minha avaliação do nível de compreensão de outra pessoa, em vez de um sentimento real. Nessa situação, posso estar me sentindo ansioso, ou aborrecido, ou estar sentindo alguma outra emoção.

 

C. "Sinto-me ignorado".

Mais uma vez, isso é mais uma interpretação das ações dos outros do que uma descrição clara de como estou me sentindo. Sem dúvida, terá havido momentos em que pensamos estar sendo ignorados e nosso sentimento terá sido de alívio, porque queríamos ser deixados sozinhos. Da mesma forma, terá havido outros momentos em que nos sentimos magoados por estar sendo ignorados, porque queríamos participar. Palavras como ignorado tendem a expressar como interpretamos os outros, e não como nos sentimos.

 

CONSTRUINDO UM VOCABULÁRIO PARA OS SENTIMENTOS

 

              Ao expressar nossos sentimentos, seria muito útil se utilizássemos palavras que se referem a emoções específicas em vez de palavras vagas ou genéricas. Por exemplo, se dissermos "Sinto-me bem a esse respeito", a palavra bem pode significar alegre, excitado, aliviado ou várias outras emoções. Palavras como bem ou mal impedem que o ouvinte se conecte facilmente ao que podemos de fato estar sentindo.

 

RESUMO

 

              O segundo componente necessário para nos expressarmos são os sentimentos. Desenvolver um vocabulário de sentimentos que nos permita nomear ou identificar de forma clara e específica nossas emoções nos conecta mais facilmente uns com os outros. Ao nos permitirmos ser vulneráveis por expressarmos nossos sentimentos, ajudamos a resolver conflitos. A CNV-Comunicação Não-Violenta distingue a expressão de sentimentos verdadeiros de palavras e afirmações que descrevem pensamentos, avaliações e interpretações.

 

 

Exercício

EXPRESSANDO SENTIMENTOS

 

1. Acho que você não me ama.

2. Estou triste porque você está partindo.

3. Fico com medo quando você diz isso.

4. Quando você não me cumprimenta, sinto-me negligenciado.

5. Estou feliz que você possa vir.

6. Você é nojento.

7. Sinto vontade de bater era você.

8. Sinto-me mal interpretado.

9. Sinto-me bem a respeito do que você fez por mim.

10. Não tenho nenhum valor.

 

RESPOSTAS PARA O EXERCÍCIO

 

1. "Você não me ama" não expressa um sentimento. A frase expressa o que a pessoa acha que a outra está sentindo, e não o que ela mesma está sentindo. Quando a palavra sinto é seguida de pronomes como eu, você, ele, ela, eles, isso, que, como ou como se, o que se segue geralmente não é o que eu consideraria um sentimento. Exemplos de expressões de sentimentos poderiam ser "Estou triste" ou "Estou me sentindo angustiado".

2. O sentimento foi expressado.

3. O sentimento foi expressado.

4. Negligenciado não é um sentimento. Essa palavra expressa o que a pessoa pensa que outra está fazendo a ela. Uma expressão de sentimento poderia ser "Quando você não me cumprimenta à porta, sinto-me solitário".

5. O sentimento foi expressado.

6. Nojento não é um sentimento. Essa palavra expressa o que uma pessoa pensa da outra, e não como ela se sente. Uma expressão de sentimento poderia ser "Sinto-me enojado".

7. Ter vontade de bater em alguém não é um sentimento. Expressa o que uma pessoa se imagina fazendo, e não como ela está se sentindo. Uma expressão de sentimento poderia ser "Estou furioso com você".

8. Mal interpretado não é um sentimento. Essa expressão diz o que uma pessoa acha que a outra está fazendo. Nesse caso, uma expressão de sentimento poderia ser "Sinto-me frustrado", ou "Sinto-me desestimulado".

9. O sentimento foi expressado. No entanto, a palavra bem é vaga quando utilizada para expressar um sentimento. Geralmente podemos expressar nossos sentimentos mais claramente usando outras palavras - por exemplo, nesse caso, aliviado, gratificado ou estimulado.

10. "Não tenho nenhum valor" não é um sentimento. A frase expressa o que uma pessoa pensa de si

      mesma, e não o que ela está sentindo. Exemplos de uma expressão de sentimentos poderiam ser

     "Sou cético quanto aos meus próprios talentos" ou "Sinto-me digno de pena".