VALORES PARA A CONVIVÊNCIA - JUSTIÇA

JUSTIÇA - Unknown Artist
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SER JUSTO É SER EXATO

 

É justa a chave que se encaixa perfeitamente na fechadura, a gaveta que não fica nem larga nem apertada no móvel, a medida das calças que me corresponde sem sobrar nem faltar, a peça exata do quebra-cabeça, as lentes que corrigem exatamente a miopia dos meus olhos, a nota que me corresponde pelo exame que prestei na escola.

O que falta ou o que sobra não corresponde à ideia de justiça, mas à fraude, por falta, ou à generosidade, por excesso. Podemos dizer (e é preciso entender bem essa expressão) que a generosidade não é justa, a generosidade é... generosa. Se compramos um objeto cujo preço é R$ 15 e damos R$ 20 por ele, não somos justos, somos generosos. O justo são R$ 15, e os outros R$ 5 são a mais.

De todo modo, na maioria das vezes o fato de que uma coisa seja justa ou não independe de nós; a justiça tem uma medida exata para ser cumprida.

Por outro lado, a justiça tem o caráter de valor mínimo e necessário, já que é uma condição necessária para que nossas relações com os outros sejam corretas. Se não somos justos, não podemos ceder aos demais valores; a justiça, como as ambulâncias e os bombeiros, tem prioridade de passagem.

 

LIVRO DOS ESPÍRITOS

O sentimento de justiça é natural ou resulta de ideias adquiridas?

 

A justiça é de tal modo natural que vos revoltais ao pensamento de uma injustiça. O progresso moral desenvolve sem dúvida esse sentimento, mas não o dá; Deus o pôs no coração do homem. Eis porque encontrais frequentemente, entre os homens simples e primitivos, noções mais exatas de justiça do que entre pessoas de muito saber. (LE 873)

 

O que é justiça?

 

A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um. (LE 875)

Justiça é a virtude de dar a cada um aquilo que é seu.

 

Pode-se dizer com segurança que o interesse primordial do homem sobre a Terra é a justiça. A fim de estabelecê-la e mantê-la, os homens se agruparam e criaram suas instituições. Grosso modo, pode-se dizer, toda organização social existe a fim de obter a realização da justiça.

 

O que determina esses direitos?

 

São determinados por duas coisas: a lei humana e a lei natural. Como os homens fizeram leis apropriadas aos seus costumes e ao seu caráter, essas leis estabeleceram direitos que podem variar com o progresso. Vede se as vossas leis de hoje, sem serem perfeitas, consagram os mesmos direitos que as da Idade Média. Esses direitos superados, que vos parecem monstruosos, pareciam justos e naturais naquela época. O direito dos homens, portanto, nem sempre é conforme a justiça. Só regula algumas relações sociais, enquanto na vida privada há uma infinidade de atos que são de competência exclusiva do tribunal da consciência. (LE 875 a)

 

A regra de toda a verdadeira justiça

 

O Cristo vos disse: "Querer para os outros o que quereis para vós mesmos". Deus pôs no coração do homem a regra de toda a verdadeira justiça, pelo desejo que tem cada um de ver os seus direitos respeitados. Na incerteza do que deve fazer para o semelhante, em dada circunstância, que o homem pergunte a si mesmo como desejaria que agissem com ele. Deus não lhe poderia dar um guia mais seguro que a sua própria consciência.

 

A IGUALDADE NÃO É NECESSARIAMENTE JUSTA

 

Não é justo o que trata a todos igualmente, mas aquele que considera as diferenças de cada um e trata cada qual segundo lhe corresponde. Dizia Justiniano I (imperador bizantino) que "a justiça é a vontade constante e perpétua de dar a cada um o que é seu". A igualdade sem justiça é injusta.

Somos justos quando tratamos cada filho segundo seu talento, atendendo às suas características particulares.

Suponhamos um caso absurdo: seria justo o pai que mandasse que todos os filhos usassem óculos para não fazer diferença, porque uma das crianças é míope? Ou que todos usassem palmilhas ortopédicas porque um tem pés chatos? Estes exemplos caricaturescos dispensam qualquer comentário.

 

COMO SOLUCIONAR A INJUSTIÇA?

 

Quando somos injustos com alguém, temos de corrigir a injustiça. Não basta pedir desculpas à pessoa com quem fomos injustos; é preciso reparar a injustiça, ou seja, dar-lhe aquilo que lhe corresponde por direito.

Convém que nossos filhos assimilem esta exigência da justiça e que sejam capazes de pô-la em prática. A obrigação da reparação afeta de maneira especial suas relações fora da família (âmbito escolar, de cidadania e social). Os rígidos conceitos da justiça comutativa dificilmente são aplicáveis no âmbito doméstico; os bens familiares pertencem à família em comum, mas isto não é aplicável aos bens que são propriedade de outros donos. Onde não há justiça não pode haver direito.

 

OS DIREITOS NÃO SÃO OBRIGAÇÕES

 

Os direitos são a grande conquista da humanidade para sair da "lei da selva", segundo a qual o mais forte devora o mais fraco. Eu tenho um direito quando os outros devem me ajudar na defesa perante os mais poderosos. Reconhecer um direito é reconhecer que a razão está acima da força. Meus direitos são obrigações dos demais para mim; minhas obrigações são direitos dos demais sobre mim.

Mas é preciso completar esta ideia com outra muito importante: justamente porque meus direitos são direitos e não obrigações, posso renunciar a eles. Se eu não pudesse renunciar aos meus direitos, eles se converteriam em obrigações. Por exemplo, conhecer a possibilidade de renunciar legitimamente aos meus direitos abrirá a possibilidade de que eu ceda meu assento, justamente adquirido, a uma pessoa mais velha que está em pé no vagão e que subiu em uma estação depois da minha.

 

O CONSUMISMO

 

Na educação da justiça social, não podemos deixar de fazer uma reflexão sobre a sociedade consumista em que nos vemos imersos e ao valor oposto da redução do consumo, tradicionalmente chamado de austeridade ou sobriedade.

Vivemos em uma sociedade em que convém criar constantemente novas necessidades para absorver a produção exagerada de bens supérfluos. É preciso descartar o que está em bom estado porque existe um novo objeto para substituí-la.

"Papai, mamãe, é que todos na minha classe já têm!" é a frase habitual com que as crianças tentam nos convencer e frequentemente o conseguem. Ainda que não possamos nadar contra a correnteza, isso é verdade, podemos reduzir significativamente o ritmo do consumismo na vida familiar e fazer que em casa se viva o lema dos 3 Rs (reduzir, reutilizar e reciclar).

 

Ser justo é ser exato, nem mais, nem menos

 

FÁBULAS

O LENHADOR E O DEUS HERMES (Esopo)

 

Um homem que partia lenha perto de um rio perdeu seu machado. A correnteza o levou, e o homem, sentado na margem, lamentava-se, até que o deus Hermes, movido pela compaixão, aproximou-se. Quando soube pelo próprio lenhador a razão por que chorava, o deus mergulhou e lhe trouxe, em primeiro lugar, um machado de ouro perguntando se era seu. O lenhador respondeu que não. Então ele trouxe um machado de prata e, de novo, perguntou se era aquele que ele havia perdido. Como o lenhador disse que não, ele trouxe, finalmente, seu próprio machado, e o lenhador o reconheceu.

Hermes, satisfeito por sua honradez, lhe deu os três. O lenhador os pegou e foi ao encontro de seus companheiros para contar-lhes o que havia ocorrido. Um deles, cheio de inveja, quis ter a mesma sorte do lenhador e dirigiu-se às margens daquele rio com seu machado. Enquanto cortava lenha, atirou-o intencionalmente ao fundo de um poço, sentou-se e começou a chorar.

Hermes apareceu e perguntou-lhe o que havia acontecido. Ele contou que perdera seu machado. Então o deus lhe mostrou um machado de ouro e, quando lhe perguntou se era aquele que ele havia perdido, o homem respondeu precipitadamente, por cobiça, que sim. Hermes, então, não só não lhe deu o machado de ouro, como tampouco lhe devolveu o seu.

Esta fábula ensina como a divindade sabe favorecer os que são justos e mostrar-se adversa com os injustos.

 

O AVARO (Esopo)

 

Um avaro que havia vendido todos os seus bens comprou uma barra de ouro e enterrou-a ao pé de um muro, e não parava de ir até lá para vigiá-la. Um dos trabalhadores dos arredores, percebendo suas idas e vindas, suspeitou da verdade e, quando o avaro não estava, levou o ouro consigo. O avaro voltou e, ao encontrar o esconderijo vazio, pôs-se a chorar e a arrancar os cabelos. Ao vê-lo tão aflito, um homem perguntou o que se passava, e lhe disse:

- Não se desespere, amigo! Pegue uma pedra, coloque-a neste buraco e imagine que é ouro. Dá no mesmo porque, quando havia ouro, você não o usava para nada!

Esta fábula quer dizer que a possessão de bens não vale nada, se não os usamos devidamente.

 

A JUSTIÇA APARENTE OU A FALSA JUSTIÇA

 

SE NÃO SOMOS JUSTOS...

 

Respeito                é     Escravidão

Paciência               é    Impotência

Persistência          é    Contumácia

Prudência              é    Covardia

Civilidade               é    Hipocrisia

Responsabilidade é    Prepotência

Ordem                    é    Opressão

Sinceridade           é    Insulto

Confiança              é   Traição

Diálogo                  é   Demagogia

Tolerância              é    Debilidade·

Criatividade           é    Elitismo

Cooperação           é    Conspiração

Compaixão             é    Sarcasmo

Generosidade        é    Paternalismo

Amizade                 é    Coleguismo

Paz                          é    Repressão

Alegria                    é   Alucinação

Solidariedade         é   Chantagem

Austeridade            é   Avareza

Qualquer valor       é   Gozação

 

FRASES CÉLEBRES

 

- A espada da justiça não tem capa. (Joseph de Maistre, político sardo).

- Ser bom é fácil; o que é difícil é ser justo. (Victor Hugo, escritor francês).

- O mais horrendo que existe no mundo é a justiça separada do amor (François Mauriac, escritor francês).

- É bem mais fácil ser caridoso que justo. (Arturo Graf, escritor italiano).

 

ATIVIDADES

 

SEJAMOS JUSTOS DESDE AGORA

 

É bom fazer reflexões ocasionais sobre fatos ocorridos em casa, na escola, com os companheiros... que tenham relação com a justiça, o respeito à propriedade, a reparação da injustiça...

Contos, filmes ou notícias de jornal nos abastecerão de fatos que poderemos comentar com nossos filhos. Se nos basearmos em episódios reais, recordemos que devemos julgar os fatos, não as pessoas.

 

Não podemos abusar enquanto houver quem não possa usar.

 

POSSÍVEIS NOTÍCIAS DE JORNAL

 

Abrir o jornal de qualquer dia oferece muitos casos para comentários sobre justiça e injustiça com nossos filhos. Há notícias mais adequadas para serem compreendidas pelos pequenos (furtos, abusos de poder, devoluções etc.), e outras de maior complexidade (subornos, corrupção, plágios etc.).

Alguns exemplos possíveis:

• Prisão de um homem por estragos na via pública.

• Detenção por uso fraudulento de cartões de crédito.

• Denúncia de um taxista por adulteração do taxímetro.

• Sanção a um atleta por dopping.

 

POSSÍVEIS COMENTÁRIOS A FATOS COTIDIANOS

 

• Mário lhe deixou isso, depois devolva para ele; Mônica está pedindo, você tem que devolver porque é dela, agradeça.

• Se é da Susana, você tem que pedir, e, se ela emprestar, não estrague.

• Maria lhe emprestou e você quebrou, deverá consertá-lo; se não tiver conserto, peça perdão e diga que lhe compraremos um novo.

• O que há na classe, na escada, na calçada, nas praças e nas ruas também tem dono; você não pode estragar, é para ser usado por todos.

OS SÍMBOLOS DA JUSTIÇA

 

É muito possível que nossos filhos tenham visto, em alguma ocasião, dois símbolos universais da justiça: a balança com os pratos em equilíbrio (às vezes com uma espada como fie!), ou uma figura humana de mulher, com os olhos vendados que, por sua vez, sustenta a balança equilibrada.

Despertemos a sua curiosidade: com nossa ajuda, a criança poderá ver todo o significado de tais imagens. Ambos os ícones se prestam a ser desenhados, coloridos ou recortados.

 

SUGESTÕES

 

Aproveitemos as ideias básicas de:

 

• Objetividade da justiça.

• Correspondência exata entre direito e obrigação.

• Possível coação para exigir seu cumprimento.

• Desequilíbrio enquanto não se cumpre a justiça.

 

OS BENS COMUNS

 

Podemos partir de alguma propriedade compartilhada que nossos filhos conheçam (comunidade de vizinhos, sociedade esportiva, cultural, religiosa, beneficente...) e confeccionar uma lista dos seus bens. Inclusive podemos agrupar estes bens em diversos segmentos para constatar sua multiplicidade e variedade.

• De onde procedem os fundos para a aquisição e a manutenção destes bens comunitários?

• Quem os administra e como?

• Qual será seu uso justo ou injusto?

• Como afeta o grupo a conservação ou a degradação destes bens?

 

Também podemos tentar fazer um levantamento do valor econômico dos bens deteriorados por mau uso e ver como o fato repercute entre os membros da comunidade.