LIMITE DA RESPONSABILIDADE

Limite da responsabilidade - Unknown Artist
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          Há limites a serem respeitados quando se busca atender às necessidades materiais de crianças, idosos e deficientes físicos?

 

           Quanto devemos perseverar para que a felicidade possa ser alcançada por nossos familiares, amigos e demais pessoas?

 

Na busca de respostas para essas perguntas, consideremos o significado de responsabilidade.

 

 

 

RESPONSABILIDADE

 

          O significado que adotarei é o seguinte: responsabilidade é a capacidade de suprirmos nossas necessidades e de respondermos pelas consequências de nossos atos, escolhas e omissões. A sua abrangência depende de nossas capacidades físicas, mentais, emocionais, de nosso conhecimento e habilidades desenvolvidas.

          Nos relacionamentos a nossa responsabilidade tem como limite a responsabilidade do outro. Quando pretendemos assumir a responsabilidade do outro fazemos que permaneça como dependente. O outro se vê impedido ou desestimulado de exercer sua responsabilidade.

          No lugar de criar obstáculo para que o outro seja independente, devemos assumir a possibilidade e responsabilidade de favorecermos essa conquista.

 

NECESSIDADES MATERIAIS

 

          Quando atendemos às necessidades materiais de crianças, idosos, deficientes físicos e de outros, o limite será a capacidade de cada um assumir a sua própria responsabilidade. Nessa situação é de nossa responsabilidade contribuir em favor da capacitação das pessoas com o propósito de conquistarem a autossuficiência tanto quanto seja possível. Nossa participação deve ser evitada quando e naquilo que as pessoas estejam capacitadas. Em outras palavras, devemos “dar o peixe” e nos empenharmos em “ensinar a pescar”.

          Quando invadimos a esfera de responsabilidade do outro, impedimos o seu crescimento na direção da independência ou então podemos fazer com que se considerem vítimas impotentes diante dos desafios da vida.

  

OS FILHOS

 

          Os pais precisam observar que seus filhos serão beneficiados quando permitimos e estimulamos que assumam a responsabilidade naquilo que já sejam capazes de realizar: escolher o que vestir, cuidar da higiene, fazer as lições escolares, usar o tempo de que disponham. Dessa forma, os filhos adquirem autoconfiança, impossível quando são impedidos de fazer o que podem.

          Nota-se muita resistência dos pais porque aprenderam que devem viver em função dos filhos. Filhos independentes provocam um vazio quando prevalece essa crença. Os adolescentes diante dessa situação rebelam-se na busca de seu espaço. O relacionamento fica difícil.

 

LIMITAÇÕES FÍSICAS

 

          A valorização das pessoas com limitações físicas ocorre quando a capacidade que possa existir, mesmo que limitada, ganha condições de se manifestar. Muitos são os exemplos de pessoas com severas limitações que conseguem suprir as suas necessidades total ou parcialmente. No lugar de vítimas encontramos seres responsáveis. Com a autoestima valorizada, conseguem firmar relacionamentos de qualidade.

          A mobilização de recursos em favor dessas pessoas é responsabilidade da sociedade. A locomoção, o aprendizado, o emprego são alguns desses recursos. Outros podem surgir com a evolução tecnológica. 

          Mesmo diante daqueles que aparentam total incapacidade não deve haver esmorecimento na busca de possibilidades. Quando não for possível, assumamos por inteiro nossa responsabilidade.

 

IDOSOS

 

          A dignidade das pessoas depende delas perceberem um sentido para a vida. Quando passam a acreditar que a aposentadoria, doença ou outro tipo de limitação fazem que não mais tenham propósitos a serem alcançados, acabam por desertarem da vida.

          Com o expressivo aumento da expectativa de vida, os idosos se veem diante de um problema ou de uma grande oportunidade.

          Problema quando adotam o pijama como uniforme e já não percebem sentido para a vida e entregam-se às murmurações.  No lugar de sonhos apenas recordações, em sua maioria amargas.

          Oportunidade quando percebem que as cortinas do grande espetáculo da vida continuam abertas. Notam que o conhecimento acumulado e suas experiências permitem que permaneçam como atores importantes para a família e para a sociedade de maneira geral.

          A capacidade intelectual ganha cada vez mais importância em nossas atividades. Se no passado o que valia era a capacidade física para a produção de riqueza, atualmente o conhecimento multiplica os recursos necessários. As condições adversas, quando prevalecia a importância do físico, limitavam a existência terrena de maneira significativa. Hoje, com os cuidados que permitem preservar a saúde e com as atividades cada vez mais voltadas para as capacidades intelectuais, a vida amplia-se. 

          Os idosos e todos aqueles que convivem com eles precisam se capacitar para essa nova realidade. Com o prolongamento da vida, eles precisam manter aberta a “usina dos sonhos” e buscar a  continuidade de suas realizações. Podem continuar como as mesmas atividades ou tomar outras direções. A atualização permanente e o cuidado com a preservação da saúde são condições a serem preenchidas.

          Os que convivem com os idosos, especialmente os familiares, devem favorecer que permaneçam motivados e evitar transforma-los em “crianças” incapazes de exercer suas responsabilidades. Os idosos não necessitam de atividades que unicamente preencham o tempo, mas que preencham a vida pela manutenção de propósitos que realcem o sentido da existência. Há grande equivoco quando os idosos têm a responsabilidade suprimida ou limitada. Enquanto a chama da vida estiver acesa, deve haver condições para que ela possa iluminar. Para isso serve a chama da vida e não para ser poupada ou para que tenha o brilho diminuído.  

A RESPONSABILIDADE IMPOSSÍVEL

 

          A responsabilidade pelas necessidades materiais das pessoas deve ficar restrita ao limite de suas próprias capacidades. O mais importante é assegurar que a dependência possa ser superada para que as pessoas sejam autossuficientes.  A independência é a conquista a ser assegurada ou pelo menos buscada sem esmorecimento.

          No tocante à edificação da felicidade dos outros, não se deve assumir nenhuma responsabilidade pela simples razão de que isso é impossível.

          A felicidade é resultado de uma busca interior, nada tem a ver com posses ou com aquilo que os outros possam fazer ou deixar de fazer. Ela decorre do exercício do grande mandamento da vida que é de amar ao próximo. Ao colocar em prática o mandamento conseguimos manifestar algo que sempre existiu em nossa própria essência. Autodescobrimento é percebermos e manifestarmos o que somos em essência.

          Podemos ir além da independência e alcançarmos a interdependência, que é a convivência de pessoas com grande harmonia. A plenitude da convivência é alcançada quando o relacionamento ocorre sem vínculos de dependência emocional.

          Enquanto for mantida a ilusão de sermos responsáveis pela felicidade dos outros e que eles sejam pela nossa irá sobrar apenas um processo de cobrança inútil e desgastante. No lugar da felicidade a frustração e o sofrimento por essa expectativa não ser preenchida.

          O extremo dessa crença é quando se admite que é importante o sacrifício em favor da felicidade do outro. Como se o desconforto do sacrifício fosse capaz de gerar a felicidade. O resultado é outro. Quando percebemos que alguém está se sacrificando por nós, sentimos  desconforto, especialmente se isto representar imposição de carências para aquele que realiza o sacrifício.

          Quando alguém busca fazer o outro feliz pelo sacrifício, poderá exigir o mesmo tipo de retribuição mediante cobrança que fará posteriormente. Estamos diante da ciranda do sacrifício que gera novos sacrifícios.

          O equívoco da responsabilidade pela felicidade do outro é instalado e reforçado na infância. Chantagens emocionais e desarmonia no convívio induzem a criança a incorporar a ideia de que se comportar de determinada maneira ou se fizer certas coisas fará as pessoas à sua volta, especialmente os de sua família, mais calmas e não brigarão com ela.

          Em situações de doenças dos pais ou de outros cuidadores, é comum que a criança instale a crença de que o seu comportamento é importante para não dar trabalho e que poderá piorar o estado dos doentes.

          Os pais com a crença de que são responsáveis pela felicidade de seus filhos reforçam ainda mais essa falsa dependência. Há ainda o que cada cônjuge espera do outro. Cada um transfere para o outro a responsabilidade por sua felicidade.

          Na vida podemos andar um ao lado do outro sem, contudo, ter qualquer possibilidade de penetrar o outro e produzir  nele a felicidade.