OBSERVAR SEM JULGAR

Observar sem julgar - Unknown Artist
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Estudo do livro de Marshall B. Rosenberg

 

Numa canção que ilustra a diferença entre julgamento e observação, Ruth Bebermeyer, uma amiga de Marshall, mostra o contraste entre linguagem estática e linguagem dinâmica:

Nunca vi um homem preguiçoso;

já vi um homem que nunca corria

enquanto eu o observava, e já vi

um homem que às vezes dormia

entre o almoço e o jantar, e ficava

em casa em dia de chuva;

mas ele não era preguiçoso.

Antes que você me chame de louca,

pense: ele era preguiçoso ou

apenas fazia coisas que rotulamos de "preguiçosas”?

 

Nunca vi uma criança burra;

já vi criança que às vezes fazia

coisas que eu não compreendia,

ou as fazia de um jeito que eu não planejara;

já vi criança que não conhecia

as mesmas coisas que eu;

mas não era uma criança burra.

Antes de chamá-la de burra,

pense: era uma criança burra ou

apenas sabia coisas diferentes das que você sabia?

 

Procurei quanto pude,

mas nunca vi um cozinheiro.

Já vi alguém que combinava

ingredientes que depois comíamos,

uma pessoa que acendia o fogo

e cuidava do fogão que cozinhava a carne.

Vi todas essas coisas, mas não vi cozinheiro.

Diga-me o que você vê:

você está vendo um cozinheiro ou alguém

fazendo coisas que chamamos de cozinhar?

 

O que alguns chamam de preguiçoso

outros chamam de cansado ou tranquilo;

O que alguns de nós chamamos de burro

para outros é apenas um saber diferente.

Então, cheguei à conclusão

de que evitaremos toda confusão

se não misturarmos o que podemos ver

com o que é nossa opinião.

E, por isso mesmo, também quero dizer

que sei que esta é apenas minha opinião.

 

              Embora os efeitos de rótulos negativos como "preguiçoso" e "burro" sejam mais evidentes, até um rótulo positivo ou aparentemente neutro como "cozinheiro" limita nossa percepção da totalidade de outra pessoa.

O primeiro componente da CNV – Comunicação Não-Violenta - acarreta necessariamente separar observação de julgamento. Precisamos observar claramente, sem acrescentar nenhum julgamento, o que vemos, ouvimos ou tocamos que afeta nossa sensação de bem-estar.

              As observações constituem um elemento importante da CNV, em que desejamos expressar clara e honestamente a outra pessoa como estamos. No entanto, ao combinarmos a observação com o julgamento, diminuímos a probabilidade de que os outros ouçam a mensagem que desejamos lhes transmitir. Em vez disso, é provável que eles a escutem como crítica e, assim, resistam ao que dizemos.

              A CNV não nos obriga a permanecermos completamente objetivos e a nos abstermos de julgar. Ela apenas requer que mantenhamos a separação entre nossas observações e nossos julgamentos.

 

A FORMA MAIS ELEVADA DE INTELIGÊNCIA HUMANA

 

              Certa vez, o filósofo indiano J. Krishnamurti disse que observar sem julgar é a forma mais elevada de inteligência humana. Quando Marshall leu essa afirmação pela primeira vez, o pensamento "Que disparate!" passou por sua cabeça antes que percebesse que acabara de fazer um julgamento. Para a maioria de nós, é difícil fazer observações que sejam isentas de julgamento, crítica ou outras formas de análise sobre as pessoas e seu comportamento.

              Marshall adquiriu aguda consciência dessa dificuldade quando trabalhou numa escola primária onde eram frequentes as dificuldades de comunicação entre os professores e o diretor. A Secretaria de Ensino pediu que os ajudasse a resolver o conflito. Deveria conversar primeiro com os professores e depois com estes e o diretor.

              Marshall iniciou a reunião perguntando aos professores: "O que o diretor está fazendo que entra em conflito com as necessidades de vocês?" A resposta foi rápida: "Ele fala mais que a boca!" Eu havia pedido uma observação, mas, embora a expressão "falar mais que a boca" me desse informações de como aquele professor julgava o diretor, ela não descrevia o que este dissera ou fizera que levara o professor a interpretar que ele "falava mais que a boca".

              Outro professor disse: "Sei o que ele quer dizer: o diretor fala demais!" Em vez de uma observação clara do comportamento do diretor, era mais uma vez um julgamento. Um terceiro professor então declarou: "Ele acha que é o único capaz de dizer algo que valha a pena". Marshall explicou que inferir o que outra pessoa pensa não é a mesma coisa que observar seu comportamento. Por fim, um quarto professor arriscou: "Ele quer sempre ser o centro das atenções". Aquilo também era uma inferência (do que outra pessoa está querendo), dois professores disseram em coro: "Bem, sua pergunta é muito difícil de responder!”.

              Mais tarde, trabalharam juntos para criar uma lista que identificasse comportamentos específicos do diretor que os incomodavam, e fizeram com que essa lista estivesse isenta de julgamentos. Por exemplo, o diretor costumava contar histórias de sua infância e suas experiências de guerra durante as reuniões com os docentes; como resultado, as reuniões às vezes demoravam vinte minutos além da conta. Os professores perguntados se já tinham comunicado seu aborrecimento ao diretor, responderam que haviam tentado, mas que o fizeram apenas com comentários de caráter julgador. Nunca tinham feito nenhuma referência a comportamentos específicos (o hábito de contar histórias, por exemplo) e concordaram em trazê-los à baila na reunião com todos.

              Quase tão logo começou a reunião geral, foi possível entender do que os professores falavam. Não importando o que estivesse sendo discutido, o diretor sempre dizia: “Isso me lembra de quando”... “- e iniciava uma história sobre a infância ou a guerra”. Marshall esperou que os professores expressassem seu mal-estar com o comportamento do diretor. Entretanto, em vez de Comunicação Não-Violenta, eles aplicaram condenação não-verbal: alguns reviraram os olhos, outros bocejaram ostensivamente, outro ficou olhando o relógio.

              Marshall aguentou essa situação penosa até que finalmente perguntou: "Alguém vai dizer alguma coisa?" Seguiu-se um silêncio constrangedor. O professor que havia se pronunciado primeiro em reunião anterior criou coragem, olhou direto para o diretor e disse: "Ed você fala mais que a boca".

              Como mostra essa história, nem sempre é fácil nos livrarmos dos velhos hábitos e dominarmos a capacidade de separar a observação de julgamento. Os professores acabaram conseguindo esclarecer para o diretor os atos específicos que os aborreciam. O diretor escutou de boa vontade e então disparou: "Por que nenhum de vocês não me disse isso antes?" Reconheceu ter consciência do hábito de contar histórias e, em seguida, começou a contar uma! Foi interrompido e alertado, com bom humor, que ele estava fazendo aquilo de novo. Terminaram a reunião desenvolvendo maneiras pelas quais os professores poderiam gentilmente fazer o diretor saber quando suas histórias não estavam sendo apreciadas.

 

RESUMO

 

              O primeiro componente da CNV acarreta necessariamente que se separe observação de julgamento. Quando combinamos observações com julgamentos, os outros tendem a receber isso como crítica e resistir ao que dizemos. A CNV é uma linguagem dinâmica que desestimula generalizações estáticas. Em vez disso, as observações devem ser feitas de modo específico, para um tempo e um contexto determinado. Por exemplo, "Zequinha não marcou nenhum gol em vinte partidas", em vez de "Zequinha é péssimo jogador de futebol".

 

OBSERVAÇÃO OU JULGAMENTO?

Exercício

 

              Para determinar sua habilidade de discernir entre observações e julgamentos, faça o exercício a seguir. Circule o número de qualquer afirmação que seja uma observação pura, sem nenhum julgamento associado.

              1. Ontem, João estava com raiva de mim sem nenhum motivo.

              2. Ontem à noite, Lúcia roeu as unhas enquanto assistia à TV.

              3. Marcelo não pediu minha opinião durante a reunião.

              4. Meu pai é um homem bom.

              5. Maria trabalha demais.

              6. Luis é agressivo.

              7. Cláudia foi a primeira da fila todos os dias desta semana.

              8. Meu filho frequentemente deixa de escovar os dentes.

              9. Minha tia reclama de alguma coisa toda vez que falo com ela.

 

Respostas para o exercício

 

              1. "Sem nenhum motivo" é um julgamento. É um julgamento inferir que João estava com raiva. Ele podia estar magoado, amedrontado, triste ou outra coisa. Exemplos de observações sem julgamento poderiam ser "João me disse que estava com raiva" ou "João esmurrou a mesa".

              2. É uma observação à qual não esta associada nenhum julgamento.

              3. É uma observação à qual não esta associada nenhum julgamento.

            4. "Homem bom" é um julgamento. Uma observação sem julgamento poderia ser "Durante os últimos 25 anos, meu pai tem doado um décimo de seu salário a obras de caridade".

              5. "Demais" é um julgamento.  Uma observação  sem  julgamento  poderia ser  "Maria passou mais de sessenta horas no escritório esta semana".

             6. "Agressivo" é um julgamento. Uma observação sem julgamento poderia ser "Luís bateu na irmã quando ela mudou de canal”.

              7. É uma observação à qual não esta associada nenhum julgamento.

              8. "Frequentemente" é um julgamento. Uma observação sem julgamento poderia ser "Esta semana, meu filho deixou duas vezes de escovar os dentes antes de dormir".

             9. "Reclama" é um julgamento. Uma observação sem julgamento  poderia ser "Minha tia telefonou para mim três vezes esta semana, e em todas falou de pessoas que a trataram de alguma maneira que não a agradou".